Planejamento

Evapotranspiração na irrigação: como usar ETo e Kc para estimar quanto irrigar

A evapotranspiração ajuda a estimar o consumo da lavoura. Veja como usar ETo, Kc, chuva e água no solo para avaliar quanto e quando irrigar.

Sistema de gotejamento no acervo da Perin Irrigação
Fotografia do acervo da Perin Irrigação.

Antes de começar

Entenda evapotranspiração, ETo e Kc e veja como o balanço de água ajuda a estimar a lâmina e o tempo de irrigação, com exemplo hipotético.

Resumo: a evapotranspiração ajuda a estimar a água que a lavoura perde para a atmosfera. Para decidir quanto irrigar, esse consumo precisa entrar no balanço com a chuva e a água armazenada no solo. Entenda a função da ETo e do Kc, os cuidados com a irrigação localizada e o caminho da lâmina ao tempo de funcionamento, com um exemplo hipotético.

O que é evapotranspiração e por que ela define quanto irrigar

Evapotranspiração (ET) reúne a evaporação da água do solo e a transpiração das plantas. Ela ajuda a acompanhar a demanda de água da área cultivada, mas não é uma ordem para ligar a irrigação nem uma medida isolada da lâmina que deve ser aplicada.

O solo guarda água entre uma chuva e outra. Parte da chuva pode repor esse estoque; outra parte pode escoar ou drenar para além das raízes. É o balanço dessas entradas e saídas, acompanhado no campo, que orienta a reposição. A irrigação necessária pode ser menor que a ET do período ou até nula.

A circular da EPAMIG destaca duas decisões do manejo: quando e quanto irrigar. A ET contribui para ambas, junto das condições do solo, das raízes e do sistema.

Evapotranspiração de referência (ETo): o que o clima pede

A evapotranspiração de referência (ETo) é uma estimativa da demanda atmosférica para uma superfície padronizada. Na metodologia FAO, a referência é uma grama hipotética com 0,12 m de altura e sem limitação de água. A ETo não é o consumo medido da cultura da propriedade.

O método FAO Penman-Monteith usa informações de temperatura, umidade, radiação e vento, com os ajustes de localização e de altura das medições. A qualidade dos dados e a escala de tempo do cálculo precisam ser compatíveis. No manejo diário, um valor isolado ou de origem pouco representativa pode levar a uma decisão ruim.

De onde tirar a ETo na prática

  • Estação própria: pode representar bem a área quando sua instalação, manutenção e qualidade dos dados são adequadas. Ter a estação não dispensa conferir sensores e cálculo.
  • Rede do INMET: oferece dados meteorológicos observados. O serviço de estações automáticas informa disponibilização horária dos últimos 90 dias. Esses dados ainda precisam de verificação, tratamento e cálculo da ETo; proximidade, por si só, não garante representatividade.
  • Tanque Classe A: permite estimar a ETo a partir da evaporação do tanque e de um coeficiente Kp apropriado às condições de instalação e exposição.
  • Dados limitados: existem métodos e procedimentos para lidar com variáveis ausentes. A escolha deve considerar validação para as condições locais e a incerteza do resultado.

Antes de usar um número no controlador, confirme a estação, o período, a unidade e o método adotados.

Coeficiente de cultura (Kc): da referência para a sua lavoura

O coeficiente de cultura (Kc) relaciona a evapotranspiração da cultura à ETo. Na abordagem de coeficiente único e sob condições padrão:

ETc = Kc × ETo

A ETc é expressa, por exemplo, em mm/dia. Os valores de Kc variam ao longo do desenvolvimento e precisam corresponder à cultura, à cobertura do solo e às condições consideradas na referência utilizada.

Esse cálculo padrão pressupõe condições agronômicas e de disponibilidade de água adequadas. Sob estresse hídrico, estimar a ET real exige ajustes; a FAO trata esse efeito com o coeficiente Ks. Ele não deve ser confundido com um desconto livre para reduzir a irrigação. Valores tabelados e modelos precisam ser avaliados por quem define o manejo e conferidos no solo.

Gotejamento e microaspersão: o ajuste pela área molhada

O gotejamento e a microaspersão molham parte da superfície. A distribuição da copa, a vegetação entre as linhas e a frequência de molhamento também influenciam a evaporação e a transpiração.

A EPAMIG descreve o uso de um coeficiente de redução para irrigação localizada (Kl) em sua abordagem. Isso não significa multiplicar qualquer Kc por um fator fixo. Outros procedimentos já incorporam cobertura e molhamento nos coeficientes; aplicar uma redução adicional pode contar o mesmo efeito duas vezes.

O projeto deve identificar a metodologia, a origem dos coeficientes e as condições de validade. A porcentagem de área molhada não é, automaticamente, a porcentagem de redução da ET. À medida que a lavoura muda, a adequação do modelo precisa ser revista.

Da evapotranspiração ao tempo de irrigação

O cálculo só vira manejo quando considera o balanço de água e a capacidade de aplicação do sistema.

1. Lâmina líquida. É a reposição definida para a zona das raízes. Sua estimativa considera ET, chuva efetiva, armazenamento e demais entradas e saídas relevantes. Não basta subtrair a chuva total de um número diário de ET sem avaliar o que ficou disponível às plantas.

2. Lâmina bruta. É a quantidade que o sistema deve aplicar para atingir a reposição planejada, segundo o critério de eficiência adotado. Eficiência de aplicação e uniformidade são conceitos diferentes. Um teste de uniformidade no gotejamento avalia a distribuição das vazões; ele não mede sozinho as perdas de água nem determina a eficiência real. O cálculo deve usar uma metodologia coerente, sem somar correções que representem o mesmo efeito.

3. Turno de rega e tempo. O intervalo entre irrigações depende do estoque de água que pode ser consumido sem ultrapassar o limite de manejo. Solo, raízes, demanda e geometria do volume molhado entram nessa avaliação. Já o tempo resulta do volume bruto planejado dividido pela vazão disponível, conferindo também infiltração, pressão e distribuição da água.

Exemplo hipotético

Este exemplo mostra apenas a sequência de contas. Nenhum dos fatores representa recomendação para uma cultura ou propriedade:

  • ETo de um dia: 5,0 mm;
  • Kc hipotético: 0,75;
  • fator de localização hipotético: 0,60, em uma metodologia que ainda exige esse ajuste;
  • área de referência por planta: 6 m × 4 m = 24 m²;
  • hipótese de balanço: repor integralmente a ET ajustada desse dia, sem chuva efetiva ou outras contribuições;
  • eficiência de aplicação hipotética: 90%, distinta de CUD ou uniformidade de emissão;
  • vazão total assumida em operação: quatro emissores de 4 L/h, somando 16 L/h por planta.

As contas ficam assim:

  • ET estimada com o ajuste adotado = 5,0 × 0,75 × 0,60 = 2,25 mm/dia;
  • volume líquido = 2,25 × 24 = 54 L por planta por dia, pois 1 mm sobre 1 m² equivale a 1 litro;
  • volume bruto = 54 ÷ 0,90 = 60 L por planta por dia;
  • tempo = 60 ÷ 16 = 3,75 h, ou 3 h 45 min.

O fator 0,60 não significa que 60% de área molhada deva gerar esse resultado. Os 90% também não foram medidos em uma instalação real. Se o Kc já incluir o ajuste de cobertura, o fator adicional pode ser inadequado. Antes de operar, o tempo precisa ser compatível com solo, raízes, vazões e limites do sistema.

Onde o manejo pela evapotranspiração costuma falhar

  • Dado pouco representativo: usar ETo sem conferir origem, unidade, período e qualidade.
  • Coeficiente fora do contexto: copiar Kc ou aplicar Kl sem verificar a metodologia.
  • Balanço incompleto: ignorar chuva efetiva e a água já armazenada no solo.
  • Eficiência presumida: confundir boa uniformidade com ausência de perdas.
  • Falta de conferência: manter o cálculo por semanas sem observar sua resposta no campo.

Leituras de tensiômetro ou sensor de umidade do solo ajudam nessa conferência, desde que interpretadas para o solo e a instalação. A fase da cultura também importa; veja o contexto específico da irrigação do café na florada.

Perguntas frequentes

O que é evapotranspiração, em poucas palavras?

É a água que deixa a área cultivada pela evaporação e pela transpiração. Ela entra no balanço usado para decidir a irrigação, junto da chuva e da água disponível no solo.

Qual a diferença entre ETo e ETc?

A ETo representa uma superfície de referência. A ETc representa a cultura sob as condições definidas pelo modelo; na abordagem padrão de coeficiente único, é calculada por Kc × ETo.

Posso manejar a irrigação só com o tanque Classe A?

O tanque pode fornecer uma estimativa de ETo com Kp adequado. A decisão ainda exige dados da cultura, balanço de água e acompanhamento do solo. Sua leitura não fornece, sozinha, o tempo de irrigação.

Preciso de uma estação meteorológica na fazenda?

Nem sempre. Dados externos podem ser úteis quando representam as condições da área. Em projetos de automação e fertirrigação, a integração deve incluir conferência dos dados e limites operacionais, sem transformar a ETo em comando automático isolado.

Conclusão

A evapotranspiração ajuda a justificar a decisão de irrigar. O resultado fica mais útil quando a origem dos dados, os coeficientes e o balanço estão claros e são conferidos no campo. Na irrigação localizada, vale verificar também se cobertura e molhamento já foram considerados no modelo.

Para revisar os tempos de irrigação da sua área, a equipe da Perin Irrigação pode ajudar a avaliar o caso. Envie município, cultura, área aproximada e fonte de água pelo WhatsApp (14) 99824-5219 ou pelo e-mail contato@perinirrigacao.com.br. Se houver, reúna também o projeto e os registros de operação.

Fontes consultadas

Pesquisa original em 28/10/2026, com revisão técnica nesta data. As referências apoiam os conceitos; não validam os fatores hipotéticos do exemplo para uma área real.

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